“O antipetismo não encontra sustentação na realidade”, diz Zarattini, cotado para ser candidato a prefeito de SP. Por José Cássio



Foto: Site Diário do Centro do Mundo

Na semana em que Fernando Haddad praticamente declinou da ideia lançada por Gleisi Hoffmann para assumir a candidatura à prefeitura de São Paulo, em 2020, o tema eleições municipais voltou a sacudir o PT paulistano.

Com o ex-prefeito cada vez mais propenso a assumir sua vocação de líder nacional e herdeiro das bandeiras de Lula, falamos com o ex-líder do PT na câmara, deputado Carlos Zarattini, sempre lembrado por militantes e lideranças como um bom nome para assumir a candidatura.

Zarattini é economista, foi vereador, deputado estadual, federal. É o criador do Bilhete Único durante o governo Marta, uma iniciativa que teve desdobramentos em todo o país.

Vem de uma família de militantes de esquerda. O tio, o ator Carlos Zara, sempre desempenhou papel importante como líder no setor de Cultura.

O pai, Ricardo, conhecido no PT como “Velho Zara”, é um ícone da luta por liberdades da esquerda latino-americana: está naquela emblemática foto dos estudantes que sequestraram o embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick, durante os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil.

DCM – Qual sua opinião sobre a cidade nesta gestão do PSDB (João Doria – Brunos Covas)?

Carlos Zarattini – Até agora, não mostrou a que veio.

Não tem agenda para a cidade. Na área social, o que se vê é um vazio completo. Obras, nada.  Até mesmo no que é essencial, como a manutenção urbana, não há o que destacar: o que temos são praças abandonadas, buraqueira, lixo acumulado, Iluminação precária.

Ou seja, uma administração devagar na questão social, sem projeto, sem obras para apresentar e que precariamente mantém as condições mínimas para o funcionamento da cidade.

DCM – Qual a sua opinião sobre o prefeito Bruno Covas?

CZ – Ele não tem estatura política, não se apresenta como uma liderança necessária para uma cidade de grande porte como São Paulo. Como prefeito, na realidade, se notabilizou como um campeão de viagens a passeio.

DCM – E sobre João Doria?

CZ – É o nosso Jânio Quadros: assumiu a prefeitura promovendo factoides. Vestiu-se de gari, anunciou fatos que não se concretizaram, como um ‘plano fantástico’ de privatizações.

Nem no que mais apostou, que foram os exames de diagnósticos pela rede pública de saúde, conseguiu pôr de pé: como abandonou a iniciativa, hoje a fila está maior do que antes.

O resultado de tanto descaso não poderia ser outro senão ter fracasso de forma vergonhosa na cidade na eleição para o governo do Estado no ano passado.

DCM – Quais as políticas implantadas pelo PT em suas três administrações da cidade que você destacaria?

CZ – A Erundina teve atuação importante na área da moradia. Naquela época não havia dinheiro, então a prefeitura deu força aos mutirões, com atividades em todas as regiões, de Pirituba até Itaquera, na ZL (Zona Leste). Em parceria com a população, foram erguidos dezenas de grandes conjuntos, facilitando a vida de quem buscava por moradia digna.

Erundina municipalizou o transporte. Sem isso, por exemplo, não teríamos conseguido realizar a implantação do Bilhete Único. Ela também iniciou a implantação do SUS na cidade, de forma a ampliar a oferta de serviços de saúde.

Marta atuou fortemente na implantação do Bilhete Único, na implantação dos corredores, na renovação da frota do sistema de ônibus urbanos, com a legalização dos perueiros que foram trazidos para dentro do sistema. Além disso, descentralizou a gestão das subprefeituras, garantindo autonomia administrativa e financeira de forma que a prefeitura contribuísse com a geração de emprego e renda nos bairros.

Dois programas implantados pela Marta foram replicados no Brasil inteiro: os CEUs e a integração do Bilhete Único. Isso dá uma dimensão do trabalho que foi realizado.

O Haddad teve inúmeros acertos na Educação: ampliou vagas em creches e no ensino infantil, implantou o programa de universidades abertas nos CEUs. Criou o bilhete semanal, depois o mensal de transporte, conquistou a gratuidade para os estudantes.

Isso para não falar da entrega do novo Plano Diretor e da renegociação da dívida pública, que aliviou bastante o caixa da prefeitura.

DCM – Então, o que faltou para que o partido conseguisse se manter na prefeitura por mais de uma administração?

CZ – Nós não conseguimos enfrentar a ofensiva da elite em parceria com a mídia. Esse foi o ponto crucial.

Em síntese, e muito por falha de comunicação nossa, faltou diálogo com a população, e podemos dizer que esse diagnóstico é o mesmo para os três casos.

DCM – O PT, do ponto de vista eleitoral em SP, virou dependente do ex-prefeito Fernando Haddad?

CZ – Haddad é uma liderança importante que hoje está vinculado ao projeto nacional do partido. Ganhou em vários estados do Nordeste, recuperou parte da nossa densidade em São Paulo, ampliando entre os estudantes e jovens, e foi capaz de levar a herança do Lula.

Penso que o foco dele deve ser a continuidade desse trabalho, inclusive para nos ajudar em São Paulo e nos demais municípios onde vamos disputar.

DCM – Como, e por onde começar, combater o antipetismo?

CZ – Se você lembrar o trabalho que foi feito contra a Erundina, de rejeição do PT na periferia, durante o governo Maluf, vai dizer que seria impossível termos eleito a Marta logo depois.

O antipetismo, ou qualquer outra forma de perseguição, precisa encontrar sustentação na realidade. E a realidade hoje qual é? A vida das pessoas está pior. Esse é o fato concreto.

Então a tendência é as críticas irem diminuindo, e isso já está acontecendo, basta andar pela cidade. Temos de reconquistar a confiança das pessoas especialmente nos bairros, que é onde as nossas políticas são mais efetivas e portanto reconhecidas pela população.

O que eu pessoalmente estou sentindo é que até em lugares ricos, que tradicionalmente nunca apoiaram o PT, como os Jardins e o Morumbi, por exemplo, já tem gente mais sensível e esclarecida percebendo a necessidade de um diálogo melhor.

DCM – SP é uma cidade que viveu experiências de governos à direita e à esquerda: qual a diferença fundamental dessas gestões?

CZ – Os governos da direita protagonizados pelo Maluf foram marcados por grandes obras.

Já o PSDB, no curto período de Mário Covas, teve uma visão mais voltada para o social, com propostas de urbanização das periferias, de ampliar e melhorar o sistema de saúde.

Os do PT, como já disse, são governos populares voltados para a questão social da cidade, e os de Kassab e agora Bruno Covas sempre focados no aspecto cosmético apenas.

O Kassab ainda que conseguiu manter um sistema interessante de manutenção urbana, implantou o Cidade Limpa, mas nada que a gestão atual de Bruno Covas não tenha conseguido apagar.

DCM – Você gostaria de ser prefeito de São Paulo?

CZ – Tem gente do PT que incentiva isso. Fui vereador, deputado estadual, federal, secretário dos Transportes e de Subprefeituras, tenho uma militância bastante ativa no partido.

Penso que temos de ter a preocupação de focar esforços e recursos em obras e ações nas subprefeituras para gerar emprego e renda para a população.

Além disso, uma política fortemente voltada para os jovens. Não adianta, por exemplo, você ter uma escola de boa qualidade se os jovens não estão mobilizados em torno dela.

Ações nas áreas de cultura, esporte, feiras de conhecimento, fazer a cidade exercer a sua vocação, que é voltar a pulsar, através de novos relacionamentos, novas habilidades conquistadas.

E o mais interessante é que São Paulo suporta tudo isso sozinha. Não depende de Estado nem da União para caminhar.

Penso que é possível mobilizar todo mundo e dar um novo salto, que é o que todos esperam.

Fonte: Diário do Centro do Mundo – DCM